A corrida à liderança do MPLA ganha contornos cada vez mais tensos e reveladores de um partido dividido entre o discurso de renovação e a prática de continuidade. Hoje, em comunicado divulgado nas suas redes sociais, Higino Carneiro reafirmou a sua intenção de se candidatar à Presidência dos camaradas, numa altura em que a subcomissão de recepção de candidatura da Comissão Preparatória do partido informou ainda não ter recebido formalmente qualquer processo sobre o assunto.
Por Geraldo José Letras
A intenção do também general coloca, inevitavelmente, em confronto directo a sua narrativa reformista com a liderança consolidada de João Lourenço — uma liderança que, apesar de prometer mudanças, é hoje alvo de crescente desgaste interno e externo.
Higino Carneiro apresenta-se como o rosto de uma alegada “nova abordagem”, defendendo a democratização interna, a valorização das bases e a reconexão do partido com a sociedade civil. No papel, a sua agenda pouco difere daquilo que João Lourenço prometeu ao assumir a liderança do MPLA: combate à corrupção, abertura política e moralização da vida pública.
No entanto, a realidade dos últimos anos levanta dúvidas legítimas. Sob a liderança de João Lourenço, o MPLA manteve uma estrutura fortemente centralizada, com decisões estratégicas concentradas no topo e pouca margem para contestação interna. A prometida democratização interna nunca se materializou de forma consistente, e as bases continuam, em larga medida, relegadas a um papel secundário.
É neste vazio entre promessa e execução que Higino Carneiro tenta posicionar-se. Mas a questão que se impõe é inevitável: poderá alguém profundamente ligado ao mesmo sistema político apresentar-se como agente credível de ruptura?
Um dos pilares centrais da candidatura de Higino Carneiro é a valorização do militante de base. Trata-se de uma bandeira historicamente explorada em momentos de disputa interna no MPLA, mas raramente traduzida em mudanças estruturais.
Durante a presidência de João Lourenço, apesar do discurso inclusivo, pouco mudou na prática. Militantes continuam a denunciar falta de oportunidades, ausência de participação efectiva e distanciamento entre a liderança e a realidade local. A máquina partidária permanece hierarquizada, com benefícios concentrados em elites políticas.
Higino Carneiro promete inverter essa lógica. Mas críticos apontam que o general foi, durante décadas, parte integrante do mesmo aparelho que agora diz querer reformar — o que fragiliza a credibilidade do seu discurso.
Outro ponto sensível é o apelo à unidade. Tanto João Lourenço quanto Higino Carneiro utilizam a retórica da coesão interna, mas, na prática, essa “unidade” tem sido frequentemente associada à neutralização de vozes divergentes.
Sob João Lourenço, episódios de afastamento de figuras críticas e controlo do debate interno reforçam a percepção de que a unidade tem servido mais como instrumento de disciplina política do que como espaço de pluralismo.
Higino Carneiro, ao defender “somar e não dividir”, tenta capitalizar o desgaste dessa estratégia. Ainda assim, evita confrontar directamente as causas profundas das divisões internas, optando por um discurso conciliador que, para muitos analistas, carece de propostas concretas para garantir verdadeira inclusão política.
A promessa de modernização do MPLA surge como outro ponto de convergência entre os dois protagonistas. João Lourenço assumiu o poder com a bandeira da reforma económica e institucional, mas enfrenta críticas severas devido ao agravamento das condições sociais, aumento do desemprego e perda de poder de compra da população.
Higino Carneiro tenta reposicionar essa agenda, defendendo um partido mais próximo da sociedade civil e mais sensível às aspirações populares. No entanto, a ausência de detalhes concretos sobre como pretende alcançar essa transformação levanta dúvidas sobre a consistência da proposta.
Ambos os discursos convergem num ponto estratégico: a preparação para as eleições gerais de 2027. Contudo, o verdadeiro desafio do MPLA já não é apenas vencer eleições — é recuperar credibilidade junto de uma população cada vez mais crítica, especialmente entre os jovens.
João Lourenço enfrenta um desgaste evidente, resultado de promessas não cumpridas e de uma governação percebida como distante das dificuldades reais dos cidadãos. Higino Carneiro surge, assim, como alternativa interna, mas ainda sem conseguir demonstrar que representa uma ruptura efectiva e não apenas uma reconfiguração do mesmo poder.
A disputa interna no MPLA expõe uma crise mais profunda: a incapacidade do partido de se reinventar para além dos discursos. Tanto João Lourenço quanto Higino Carneiro falam de mudança, unidade e modernização — mas o país continua à espera de resultados concretos.
Num contexto em que o eleitorado já não se contenta com promessas, a batalha pela liderança do MPLA será menos sobre quem fala melhor e mais sobre quem consegue provar, com acções, que é capaz de romper com práticas enraizadas.
Porque, desta vez, não basta vencer internamente. É preciso convencer um país inteiro que já aprendeu a duvidar.

